v_vida_inochi

Escrevo estas linhas com a absoluta certeza de que o dia de hoje ficará marcado em minha vida. Quase vinte anos depois trabalhando no mesmo lugar, pude testemunhar o último dia de trabalho de vários colegas (detesto o termo companheiro, pois para este que vos tecla tornou-se um vocábulo pelego), alguns que me ensinaram muito, outros com os quais eu vivia “batendo de frente” e outros que jamais troquei uma palavra.

Para quem não sabe sou um quarentão, gasto pela batalha diária, mas sou um quarentão. Depois de algumas despedidas dei-me conta de quanto tempo passou, eu tinha cabelos pretos quando pus os pés nesta empresa, muita gente me perguntava se eu era wrestler, fiz amizades rapidamente e também fiz algumas inimizades, afinal toda unanimidade é burrice, segundo um intelectualóide que não consigo lembrar o nome.

A primeira vez que entrei numa fabrica foi neste arquipélago e ao contrario de muitos eu sempre gostei, pude presenciar cenas dantescas, discussões homéricas, assisti vários dramas que não cabem aqui comentar, sempre foi como se eu estivesse lendo um livro, ou assistindo um filme e ainda recebia para isto, devo confessar que várias das minhas crônicas (publicadas em outros espaços) foram inspiradas neste ambiente.

Hoje curiosamente ouvi duas vezes a mesma coisa, “apostei a minha vida aqui”.

Japoneses com os olhos cheios de lágrimas, um aperto no coração deixando o lugar, mas com o sorriso no rosto, dizendo, gambate, né!

Hoje pensei com meus botões, e eu? O que será de mim? Qual será a minha reação quando for minha hora? O que me restará?

Sem curso superior completo, sem fluência no idioma nipônico, não tenho talento para ser músico, intelectualidade para tornar-me um escriba, patrocínio para poder me dedicar integralmente ao mundo das imagens, coragem para ensinar artes marciais em troca de dinheiro (não que eu condene quem faz, mas eu não tenho coragem), o que será de mim?

Lembrei das decisões que tomei, de tudo que deixei para trás, acabei lembrando um poema do Drummond “E agora José?”.

Mas independentemente do que possa vir acontecer quero deixar claro que cada momento até hoje vivido valeu a pena, continuarei seguindo o meu caminho, enfrentando os desafios, misérias e surpresas que a vida me reserva, afinal de contas eu sou brasileiro.

P.S: Esta semana postarei um vídeo sobre o projeto que formará dezessete novos professores de japonês e ensinará o japonês do dia-a-dia para vinte pessoas, aguardem