Na última sexta-feira de maio fui ao consulado para obter a cédula de matrícula de cidadão brasileiro e justiça seja feita, atendimento impecável.

Alguns podem até achar que estou exagerando, mas sinceramente sempre fui bem atendido e nesta última vez foi melhor ainda, o consulado não estava tão movimentado.

Na minha frente havia um par de mães casando seus filhos, fazia tempo que não via ninguém casando e pude perceber o clima tenso dos participantes.

Não pude deixar de reparar em um documentarista que intercalava conversas no celular com causos da vida real, ele esteve no Brasil, Rio de Janeiro, provavelmente em alguma favela, pois havia dito que fotografou o interior do caveirão, enquanto mostrava alguns cromos (fotos) para um grupo de senhoras, numa narrativa entusiasmada, às vezes interrompida por uma senhora testemunha de Jeová que tinha em suas mãos uma revista Despertai. Ele driblava a senhora enquanto dizia com certo orgulho que fora mendigo no Japão e que encontrara pessoas que acreditavam no potencial dele, senti que na verdade ele estava desabafando, como quem dizia, consegui, venci! Mesmo não tendo a oportunidade de conversar com ele fico feliz em saber que um “sonhador” alcançou o seu objetivo, e deve ter alcançado mesmo, pois conforme ele mesmo disse para a gentil atendente embarcaria para Paris no dia seguinte, Parabéns!

Segunda-feira, 31 de maio; fui convocado para uma reunião que tinha como pauta a possível confecção de um vídeo sobre os 20 anos do movimento decasségui (oh yeah! é assim que se escreve no Brasil).  

Após esperar quase uma hora para podermos conversar sobre o assunto, eis que adentra uma pessoa que eu não conhecia, entra na conversa e começa a divagar sobre a linguagem que deveria ser usada no tal vídeo, quais os pontos fundamentais, o que deveria abranger, bla, bla, bla….

Claro que depois o assunto foi tomando outro rumo e entre uma citação e outra emprestada hora de algum autor alemão neoliberal, hora de algum autor ordoliberalista, sem contar os russos, se eu bebesse diria que esta conversa cairia bem com vodka,  разрывы !

Não pude deixar de notar uma arrogância acadêmico-burguesa-ativista-neoliberal-setentista-intelecto-passível e num certo ponto da conversa quando via apenas a mandíbula da interlocutora num movimento cadenciado, pensei com meus botões: What’a fuck am’I doing here?  

No final, com nada resolvido, tomei o rumo de casa e pensei sobre aquele documentarista que estava no consulado, a vontade de gritar ao mundo sua vitória, mesmo que momentânea.

 Minha vontade sempre foi fazer algo com que pudesse compartilhar com os outros, eu não sou cineasta, não sou jornalista, sou apenas um brasileiro querendo compartilhar.

Minha vontade sempre foi a de reunir um grupo bacana para discussões civilizadas, algo que realmente acrescente no cotidiano de que vem nos prestigiar, com humildade, responsabilidade e altruísmo.

Eu sempre soube as consequências da minha decisão há vinte anos, sempre optei pelo que me faz vibrar, pelo que me faz sentir bem e pelo que acredito. E assim pretendo continuar, para alguns é teimosia, para outros burrice, mas para mim é simplesmente meu modo de ver o mundo.

Enquanto não encontro quem acredite nas minhas idéias, continuarei trabalhando e enfrentando as minhas misérias, afinal alguém tem que pagar as contas!